Stress e Resposta Cerebral

“O homem é uma memória que age” Henri Laborit

O Cérebro:

  • Museu activo de memórias
  • Centro de gestão do stress

O cérebro gere a cada instante a nossa adaptação: quer em relação ao meio externo (o que respiramos, comemos, tocamos, os outros com quem comunicamos) quer em relação ao nosso interior (o que sentimos, as emoções). O cérebro dispõe, assim, de todos os mecanismos de sobrevivência, que não são mais do que soluções de adaptação acumuladas pela espécie ao longo da história, gravadas num “museu activo” de memórias. Cada época paleontológica caracterizou-se por aprendizagens novas, por uma evolução das relações com os minerais e com os seres vivos. Estas informações, que constituem o “livro de sobrevivência dos seres vivos”, estão gravadas e disponíveis nos “ficheiros” do ADN [genes e as suas regiões reguladoras (30%), “lixo” do ADN (70%)] que o cérebro consulta permanentemente, sobretudo nos momentos de hiper stress (situação de aflição em que não se vislumbra uma solução imediata). Assim, um tecido que entra em mutação para formar um tumor, utiliza em poucas horas um “saber específico” elaborado pela evolução da espécie ao longo de milhões de anos. Também, nestes casos, o saber utilizado pode decorrer de uma aprendizagem de adaptação mais recente na história do indivíduo e do seu clã (cf marca epigenética ou memória transgeracional).
Um babuíno dispõe no cérebro de todas as informações e aprendizagens que permitiram a sobrevivência da sua espécie até hoje: alimentação variada, agilidade versátil que lhe proporciona uma mobilidade tanto nas áreas planas (andar/correr) como nos rochedos ou árvores (trepar, saltar), uma visão ao longe, uma capacidade de comunicar de forma eficaz as informações vitais, uma vigilância apurada e a força de coesão do grupo. Quando, por alguma razão, não pode recorrer a estes mecanismos de sobrevivência sente-se em perigo e entra em conflito: um rápido aumento do nível de stress solicita a função cerebral e leva-a a apresentar, de imediato, uma solução arcaica (bio) lógica de adaptação.
É conhecido o pavor dos ratos (ao contrário dos hamsters) ao fumo. Antigamente, nas aldeias, quando se viam bandos de ratos a correr sabia-se que um incêndio andava por perto. Podemos facilmente imaginar a tensão vivida por um rato posto em contacto com o fumo, mas retido na sua solução de fuga: se este drama continuar, o animal em hiper stress acaba por morrer de esgotamento das supra-renais, já que os seus esforços não se concretizam numa acção. O cérebro do animal “enfumaçado” recorre, então, a um mecanismo de salvação extrema: como o oxigénio que se rarefaz induz um stress de “medo de morrer por falta de ar”, a solução do rato consiste em agir sobre a sua própria estrutura funcional, de forma a aumentar a capacidade de aproveitamento da pequena quantidade de ar ambiente. Fisiologicamente, isto traduz-se por uma multiplicação dos alvéolos pulmonares (carcinoma). Esta alteração celular e funcional (gravada nos genes) que visa adaptar o indivíduo a uma situação de alto risco é, de facto, uma solução de extrema urgência que compensa a incapacidade de reagir “normalmente”.
Perante estes dados, seria precipitado deduzir que o fumo é patogénico e cancerígeno. Para o rato, que não é programado biologicamente para viver com fumo, da mesma maneira que o peixe não é feito para viver fora da água, o fumo constitui, de facto, uma fonte intensa de stress que se manifesta nas vias respiratórias (bronquite, carcinoma alveolar, ulceração da mucosa nasal, pólipos, etc); mas, para o hamster, o fumo não constitui um factor de stress e, por isto, não induz nenhuma alteração fisiológica como solução urgente de adaptação.
O que podemos ver, já, como factor decisivo, é a relação que o indivíduo estabelece com o elemento exterior: sente-se ou não em situação de perigo? Afinal, é esta relação que justifica (ou não) o lançamento do programa de salvação, porque o cérebro não suportando demasiado tempo um estado de conflitualidade intensa, tem alguma dificuldade em gerir este estado. Estiraçado entre duas ordens com forças contrárias, o sujeito gasta muita energia em detrimento da sua capacidade de vigilância e, nestas circunstâncias, recorre ao que lhe parece mais apropriado para romper a situação de conflito: utiliza uma patologia, um sintoma ou um comportamento específicos.

A intensidade do conflito
Por que razão podemos ter uma ulceração, um tumor, um pólipo, um cancro, um incómodo ou simplesmente nada no mesmo órgão? O que pode levar o cérebro a desencadear reacções tão diferentes?
Dado o stress provocar as reacções psico-cerebrais, é a intensidade do conflito o elemento determinante na reacção psíquica e orgânica da pessoa.  

  • Uma actividade conflitual de pequena intensidade dá origem a uma patologia de grau menor: diarreia, gripe, eczema leve, prisão de ventre, nervosismo passageiro.
  • Uma actividade conflitual de intensidade média dá origem a uma patologia de grau médio, com perturbações suportáveis e pouco invalidantes: tiques, indigestão, sono leve ou agitado, colite, dores articulares, irritação da bexiga, do útero ou da próstata, cáries, etc.
  • Uma actividade conflitual forte ou extremamente forte dá origem a patologias orgânicas ou funcionais mais invalidantes: paralisia, epilepsia, cancros dos aparelhos digestivo, respiratório, sanguíneo, urogenital, carcinoma, mioma, osteosarcome, leucemia, miopatia, esclerose em placas, AVC, etc.

A resposta patológica é proporcional à intensidade do stress; no entanto, se na sua essência ela constitui um esforço para manter a sobrevivência, nos casos de stress extremo esta solução pode exceder as capacidades adaptativas do organismo e colocar, paradoxalmente, a vida em risco.

O que faz variar a intensidade dum conflito? Vamos ver quatro factores essenciais:

    • O aspecto inesperado da situação, que deixa a pessoa sem resposta, condenando-a, muitas vezes, a vivê-la no isolamento.  

Num acidente resultante por exemplo de um piso escorregadio, ou de uma queda nas escadas, a pessoa, apanhada de surpresa, tendo que não dispõe de tempo para recorrer a uma solução racional tem de se sujeitar ao impacto do acontecimento.
Nas relações humanas os comportamentos inesperados e chocantes (traição, mentira, falta de respeito, roubo, etc.) que ocorrem com muita frequência, provocam um aumento dramático do nível de stress, sobretudo quando a pessoa não consegue desabafar com alguém, como no exemplo que se segue:
àUm senhor é solicitado para emprestar dinheiro a uma pessoa amiga. Trata-se de um conhecido que goza de um boa situação profissional e social mas condicionantes várias obrigam-no a pedir este empréstimo que promete saldar num brevíssimo espaço de tempo. A confiança no amigo, os seus argumentos e a promessa de devolver o montante num curto prazo, convencem o senhor. No dia do pagamento, o amigo pretexta um impedimento de última hora e promete o pagamento nas próximas semanas. Esta cena repete-se e o pagamento vai-se protelando. Ao ser obrigado, periodicamente, a abordar um assunto que prevê de difícil resolução, vive uma sensação de desconforto. De facto, como o empréstimo tinha sido realizado entre amigos, sem qualquer comprovativo, nunca mais recuperou o dinheiro. Não pôde falar com ninguém desta “desfeita” e ficou a remoer o assunto com um sentimento em que se misturavam raiva surda, traição, humilhação e desvalorização - “Como cedi eu tão facilmente às mentiras deste “amigo?” eis um dos seus pensamentos obsessivos. Pouco a pouco entrou numa fase depressiva. Passados alguns meses, aparecerem sintomas físicos bastante perturbadores (osteosarcoma na bacia, problemas digestivos).
à O caso seguinte ilustra como um acontecimento inesperado pode provocar a destruição de um território afectivo.
Maria namorava com o João desde os quinze anos. O casamento foi marcado para o dia dos seus 25 anos. Começaram os preparativos da cerimónia - vestido da noiva, lista dos convidados, menu, viagem de lua de mel. No entanto, uns meses antes da cerimónia prevista, o João desapareceu durante duas semanas, sem dar notícias. Quando reapareceu, declarou que tinha uma nova namorada e que já não desejava casar. Em poucos segundos, Maria viu desabar todos os seus planos de vida. Não conseguia entender, não acreditava no que ouvia: será um pesadelo, uma alucinação ou a realidade? Teve de se conformar. Durante longos meses viveu com uma profunda sensação de vazio e de desespero. Culpabilizava-se de uma desatenção,  uma falha ou erro que pudesse ter cometido involuntariamente. A vida não fazia sentido e era lhe insuportável enfrentar a solidão. Traição, abandono, inutilidade, perda afectiva, eis os sentimentos dominantes nos longos meses que se sucederam à ruptura. É inútil insistir sobre os efeitos desastrosos dum tal acontecimento. É necessário sublinhar, no entanto, que a violência destes resulta sobretudo do efeito surpresa, que deixa a pessoa sem resposta e sem defesa. Apanha “tudo em cheio”, como uma violenta bofetada, e o choque é tão devastador que todo a estrutura afectiva presente e em construção fica aniquilada. Encontra-se exactamente no estado psíquico e físico de um “refugiado” depois de um violento sismo. As referências de vida desapareceram e, pela frente, não encontra nada mais do que um imenso e desesperante vazio. Geralmente, o estado depressivo constitui apenas a parte aparente do abalo; um acontecimento desta intensidade desencadeia automaticamente uma série de reacções psico-emotivas que activam vários programas biológicos: conflito do ninho, desvalorização, culpabilidade, abandono, frustração sexual.
O luto do acontecimento está feito quando a pessoa consegue olhar o episódio dramático sem emoções perturbadoras (raiva*, culpabilidade, angústia), quando sente que aprendeu algo que a ajuda a gerir melhor a sua vida, quando, finalmente, se sente capaz de investir numa nova construção afectiva.

* Lembro o caso semelhante de uma senhora que vários anos depois da separação, continuava a nutrir uma raiva permanente pelo homem que a tinha abandonado. Não aceitava a resolução completa do luto: só a raiva lhe permitia “sobreviver” no seu deserto afectivo.

  • Uma experiência traumatizante anterior, geralmente na infância, cria uma “ferida” que programa a pessoa para um certo tipo de reacção.

A prática clínica confirma que raramente um sintoma aparece a partir dum só choque; ele aparece, normalmente quando a memória dum sofrimento da infância ou duma experiência traumática vivida durante a gravidez é reactivada por um segundo choque. Em terapia, é relevante saber que a percepção emotiva dos dois episódios é idêntica.
Com efeito, nem todos os acontecimentos perturbadores da vida emocional têm de revestir um carácter inesperado e intenso para alterarem o território emotivo; às vezes, na juventude, a separação de um amigo ou de um objecto querido, uma mudança de casa ou de escola, um beijo perdido, uma zanga ou um castigo não merecido podem ter consequências destabilizadoras, que geralmente acabam por ser “digeridas” mas que não deixam de constituir zonas sensíveis que influenciam decisivamente o feitio (confiança, agressividade, violência, apatia, agitação, estabilidade, dinamismo, timidez, desconfiança, hipersensibilidade etc.). Por exemplo, um menino recém-nascido permanece durante uns dias na incubadora: isolado da mãe, sente-se abandonado e inseguro (programação). Aos 15 anos o rapaz fica separado da 1ª namorada, que muda de cidade. Com o sentimento de abandono entra numa depressão e aparecem irritações cutâneas na parte interna dos cotovelos, antebraços e coxas. Nos dois episódios está patente o sentimento de abandono/separação; o eczema reflecte a gestão psicocerebral desta situação e a sua localização revela, mais precisamente, o sofrimento resultante da perda de contacto no gesto Abraçar.
A estrutura psíquica que se elabora a partir de sofrimentos precoces potencializa o aparecimento duma patologia crónica. Por exemplo, certos acontecimentos traumáticos de infância relativos a medos intensos gerados no meio familiar (resultado de disputas, zangas, etc), constituem alicerces suficientes para a construção de uma estrutura psíquica respiratória. Isto significa que essa pessoa apresenta uma sensibilidade que a predispõe a viver as situações de stress em termos de “ameaça para o território”; neste caso, o stress solicita preferencialmente os brônquios ou os seios nasais.
Assim, na maior parte dos casos, a pessoa que reage com intensidade a uma situação aparentemente irrelevante viveu, numa época passada, um acontecimento marcante (sofrimento) em circunstâncias muito semelhantes. O episódio recente reactiva o antigo e dá-se um efeito cumulativo que explica, muitas vezes, uma reacção desproporcionada relativamente ao acontecimento em si, aparentemente anódino. De facto, a causa do forte impacto reside na programação consecutiva ao primeiro acontecimento traumático; o organismo sensibilizado fica como uma arma engatada pronta para “disparar” no caso de viver um episódio similar.

  • A actividade duma memória transgeracional traumática

 

  • Uma crença patogénica e limitativa

 

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© Alain Jezequel 2009