O que define um conflito biológico?

Um conflito biológico não tem a ver com uma pequena contrariedade de todos os dias; é geralmente um acontecimento real (ou imaginário) que provoca uma ruptura na vida da pessoa, ruptura que a obriga a enfrentar o desconhecido, o desconforto, uma falta, uma frustração. Curiosamente, se observamos o curso da vida de um ser humano, reparamos que as “doenças” aumentam nos momentos de mudanças afectivas e/ou sociais que põem em causa o equilíbrio vital da pessoa (desmame dos recém-nascidos, entrada na escola, adolescência, namoro e separação, casamento, primeira criança, saída da casa dos filhos, menopausa, aposentação, luto, entrada num lar de terceira idade, desemprego, divórcio, mudança de casa ou de emprego, etc)
Para serem vividos como conflitos biológicos, os acontecimentos têm que apresentar as seguintes características:

  • um carácter inesperado da situação, que apanha a pessoa desprevenida, praticamente sem poder de resposta.
  • Uma forte intensidade dramática do acontecimento e a sua duração no tempo. Um choque pode ser extremamente intenso e perturbador, apesar de pouco duradouro.
  • Um “remoer” do acontecimento ( a pessoa sentindo-se muitas vezes extremamente só).

As duas fases do conflito biológico conforme a visão de Hamer.

Um conflito biológico apresenta sistematicamente – supondo que a pessoa encontre uma solução – duas fases básicas: uma fase fria de actividade e uma fase quente de recuperação. Graças à observação de manifestações fisiológicas - a temperatura das mãos, a dilatação das pupilas, o tipo de transpiração  (fria ou quente), a particularidade dos sintomas (nocturnos ou diurnos, inflamação ou ulceração), podemos definir a fase do conflito em que se encontra o paciente, ou seja, o tipo de funcionamento do sistema neurovegetativo dominante: simpaticotonia (actividade) ou vagotonia (descanso). As duas etapas realizam-se a três níveis: psíquico, cerebral e orgânico.
Vejamos como isto se passa:
A simpaticotonia corresponde à fase fria de stress, de actividade conflitual. Por exemplo, quando estamos em perigo, o sistema nervoso simpaticotónico responde ao estado de alerta desencadeando uma série de reacções fisiológicas: aumento do ritmo cardíaco, maior ventilação e órgãos sensoriais mais vigilantes (ouvido, visão, olfacto, tacto). Nesta fase, o sistema de vagotonia (recuperação e descanso) pára ou abranda a sua actividade e fenómenos como a eliminação de urina, a digestão, a circulação periférica (vasos) vêem-se alterados.
Psicologicamente, o stress manifesta-se por uma preocupação obsessiva com uma situação (uma imagem perturbadora, um acidente, uma discussão, uma forte expectativa negativa ou positiva…) que se procura resolver.  O organismo, em estado de vigilância, vai buscar às suas reservas a energia necessária e, se a simpaticotonia perdurar, normalmente a pessoa emagrece e apresenta perturbações de sono.
Mas a pessoa em estado de stress pode vir a aumentar o seu peso: isto dá-se quando, por exemplo, o cérebro lança um programa de salvação que passa pela retenção dos líquidos e/ou das gorduras, como acontece no indivíduo que vive um conflito de sobrevivência, no qual considera não dispôr dos meios de sobrevivência: alimentos, afectos, dinheiro, etc. Neste tipo de conflito, durante o qual se vive um sentimento de perda ou de abandono, o organismo acumula as reservas hídricas e calóricas que lhe permitem aguentar a penúria imediata e prevenir-se da próxima, provocando, assim, um aumento de peso.
A vagotonia, pelo contrário,  corresponde à fase de recuperação. O sangue volta a circular normalmente na periferia e no sistema digestivo, o aparelho cardio-respiratório funcionando a um ritmo mais lento. Verificam-se fenómenos de vasodilatação com uma sensação de bem-estar e de desejo de descanso. As extremidades aquecem e o sono volta ao normal, sinal de que a pessoa encontrou uma solução ao seu conflito. É geralmente nesta segunda fase – que pressupõe o fim da situação de perigo e de distúrbio, assim como o fim da necessidade de intervir com urgência – que o organismo muda de estratégia: sob o impulso do cérebro, opta por “tomar o seu tempo” a fim de consertar os eventuais estragos ocorridos durante o stress. É essencial recuperar do desgaste e do cansaço. O sono e o apetite voltam ao normal, apesar de certos fenómenos de dilatação provocarem manifestações físicas frequentemente desagradáveis - inchaços, dores, inflamações–, e mesmo assustadoras: imobilizações, hemorragias, paragens funcionais (coma diabético ou hepático). Por exemplo, o eczema com comichão ou ardor costuma assinalar a resolução de um conflito de separação ou de perda de contacto; o sangramento nas fezes pode indicar a resolução de um grave conflito de injustiça, inaceitável, que provocou uma biologização no cólon; a gripe, a angina e a rinite, como tantas doenças inflamatórias, aparecem nesta fase de resolução.

Esclarecimentos sobre o conflito biológico

Como vimos, a noção de conflito não implica necessariamente uma ideia de violência, de guerra ou de luta. No entanto, sabemos já que a pessoa em conflito vive um considerável aumento do nível de stress, relacionado com uma aflição ou um sofrimento específico. Verifica-se uma tensão, geral ou localizada que, ao colocar a pessoa em estado de acção (defesa, ataque, fuga) ou de alerta (Uma pessoa à espera de um momento de grande felicidade (receber um prémio, encontro apaixonado …) provoca uma subida do stress que, ao igualar o nível de distress dum acontecimento negativo, pode ter efeitos semelhantes. São conhecidos os casos de pessoas que adoecem (ataques epilépticos, AVC, angina…) quando o “grande momento da sua vida finalmente se realiza”. ), obriga-a a encontrar um modo de se adaptar à situação em causa. O que caracteriza esta situação? Além do seu carácter inesperado, como vimos já, a situação é vivida em termos de dinâmicas opostas:

Preso entre duas dinâmicas

Querer ir e dever ficar; querer ficar e ter de ir.
Desejar falar mas ser obrigado a calar; desejar ficar calado e ter de falar.
Desejar viajar mas medo de se afastar dos pais ou de encontrar o desconhecido…
Vejamos dois exemplos:

1- Um cão quer seguir uma cadela em cio mas não consegue, ou por estar preso, ou porque o dono o impede. Esta vivência com duas informações opostas - desejo sexual / impedimento de poder satisfazer o desejo instintivo – , coloca o animal em conflito.

2- Uma situação semelhante ocorre com um homem idoso recentemente viúvo. Deseja encontrar-se com a amante, muito mais nova. No entanto, os filhos e as noras, ao descobrirem a razão das suas escapadelas, com receio de verem dilapidada a sua conta bancária, contrariam este desejo. Perante as acusações da família, o senhor sente-se em conflito com os seus valores éticos e familiares. Nesta situação, o cérebro em duplo conflito pode desencadear uma depressão, uma paralisia, uma crise de epilepsia, uma angina de peito… ou nenhum sintoma (exactamente como pode ocorrer, também, com o cão preso).

 

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© Alain Jezequel 2009