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A bio lógica do colesterol

Alain JÉZÉQUEL

Uma das regras básicas da investigação científica enuncia que, de forma a estabelecer-se uma relação causa / efeito, deve verificar-se sistematicamente a presença da causa que provoca o efeito, em condições experimentais idênticas. Se a suposta (causa) acção deixa de provocar a reacção esperada ou se o efeito aparece sem a presença da causa, a relação causa/efeito é refutada.

Por exemplo, para “eventualmente suspeitar” uma relação de causa/efeito entre o cigarro e o cancro do pulmão seria necessário comprovar que todos os fumadores são atingidos pelo cancro do pulmão; no entanto, isto não acontece: existem muitos fumadores sem doença pulmonar e o cancro do pulmão aparece em não fumadores; por isto, é cientificamente aberrante afirmar que o cigarro provoca o cancro do pulmão (“fumar mata”) e que o fim do tabagismo vai erradicar o cancro da laringe ou dos brônquios.

A mesma incongruência aparece na tentativa de estabelecer uma ligação directa entre o sol e o melanoma (cancro da pele). Quando se sabe, por exemplo, que muitos melanomas aparecem na planta dos pés (zona do corpo onde não bate o sol) esta afirmação - que implica a “diabolização do sol” - merece ser seriamente repensada.

A falta de rigor e o desrespeito da lógica científica estão na origem de dogmas e de teorias que se vão sucedendo, cada crença tendo a sua hora de glória até ser substituída por uma nova “certeza”. Ontem era obrigatório respeitar-se a tensão alta no sujeito idoso; hoje, a luta contra a hipertensão é uma lei; ontem, era preciso aumentar a circulação cerebral dos idosos e preconizava-se um tratamento à base de fermentos lácticos e de antibióticos; a onda passou e hoje os novos terapeutas riem-se desta aberração, aconselhando, com muita convicção, a beber muita água para emagrecer ou para evitar as cistites (como se houvesse uma ligação directa entre a eliminação urinária e a perda de peso ou a desidratação e as infecções urinárias!).

Cada época produz as suas crenças e inventa os seus diabos; se ultimamente o sal faz derramar muita tinta (fala-se mesmo de tirar o sal do pão!), a luta contra o colesterol continua de vento em popa (12 milhões de caixas de hipocolesterolemiante foram vendidas com a comparticipação da Segurança Social em França, em 2006).

O que é o colesterol e qual é a sua função?

O colesterol é uma substância orgânica que se encontra na maior parte dos tecidos e humores do organismo. Mais de 70% do colesterol é produzido pelo próprio organismo, o restante resultando da alimentação. Estes dados permitem relativizar a importância dos regimes alimentares na abordagem da colesterolemia. Pude verificar valores muito elevados em sujeitos seguindo dietas alimentares rigorosas e registei casos de pessoas anorécticas e desnutridas com valores de colesterol à roda de 300mg/dl!

As várias funções desta substância revelam aspectos interessantes sobre as razões que podem influenciar a sua produção:
O colesterol é indispensável na constituição das membranas celulares (estruturas básicas dos órgãos);
tem uma função central na síntese da cortisona (hormónio do stress) e de hormónios sexuais.

Considerando que o cérebro regula as várias operações orgânicas e gere permanentemente a sobrevivência do indivíduo, o que pode justificar o aumento do colesterol? De que forma a hipercolesterolemia constitui uma solução de adaptação?

Se o aumento desta substância implica mais material para fortalecer a estrutura e para responder rapidamente ao stress, podemos entender a possível estratégia psico-cerebral que desencadeia este processo: ser forte para enfrentar as dificuldades da realidade. A prática clínica de biopsicoterapia confirma plenamente esta abordagem: uma pessoa que de repente se encontra sozinha, sem poder contar com o apoio do outro (separação, luto, abandono) face a um desafio inesperado, vê curiosamente os valores de colesterol subir, simplesmente porque a gestão cerebral considera que, simbio-logicamente, a melhor maneira de controlar uma nova situação de stress, de estar pronta para a luta sem ajuda de ninguém consiste em aumentar os recursos de colesterol. O exemplo que se segue ilustra esta perspectiva:

“Quando preciso deles, não estão” desabafa uma senhora a respeito dos amigos e dos familiares. “Fui-me habituando desde pequena a ser auto-suficiente”. Vive sozinha e tem atritos com os vizinhos que, diz, não fazem o que lhes compete como condóminos. Esta situação incomoda-a muito, ultimamente. Os exames acusam um nível elevado de colesterol que as dietas não resolvem. Com a tomada de consciência do processo interior vivido pela senhora, os valores alteram-se substancialmente.

BRAGA, 3-05-08

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© 2008 Alain Jezequel