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A biológica da Alergia

 

Entender o mecanismo biológico que sustenta a síndroma alérgica é fundamental, na medida em que a maior parte das patologias resulta do mesmo processo psico-cerebral que vamos descrever a seguir. O que chamamos fenómeno alérgico apresenta, de facto, dois tempos ou, mais exactamente, dois momentos psico emotivos chaves:

· Primeiro, um acontecimento perturbador, vivido de forma traumática. Imaginemos o nosso cérebro no momento de choque, em estado de alerta máxima, a tirar uma fotografia multisensorial que grava alguns elementos da situação de aflição. O perigo está, automaticamente identificado, de modo que o cérebro veicula estas informações vitais ao sistema imunitário. (a principal função do sistema imunitário é proteger o nosso organismo, mais concretamente, identificar e eliminar os elementos que constituem uma ameaça para a integridade corporal). Ao entrar na memória do sistema imunitário o acontecimento passa a ser gerido de forma automática e inconsciente.

· O segundo momento aparece quando meses, anos ou décadas depois, o organismo entra de novo em contacto com um (ou vários) componente(s) da “fotografia” original; o sinal de alerta geral dispara imediatamente porque o inconsciente celular identificou um perigo (pó, pelo de gato, cheiro de um perfume, uma palavra, etc.) e, consequentemente, lança uma resposta de defesa imunológica. É a partir desta reacção que o fenómeno alérgico começa e se repete de cada vez que se confronta com o “alergénio”. Convém sublinhar que a própria pessoa, apesar de acabar, de forma dedutiva, por estabelecer uma relação entre o elemento gatilho (pó, pólen…) e a alergia, não tem consciência da ligação existente entre o momento traumático de origem e a reacção; trata-se de um mecanismo celular completamente inconsciente. A alergia age, de facto, como uma sentinela que avisa da iminência de um perigo e é por isto que a resposta é imediata. É como se uma crença se edificasse entre o acontecimento inicial X e a vida futura: de cada vez que encontro X1 que estava no momento X, existe um perigo e isto determina comportamentos de alerta.

Tomemos um exemplo:

Uma criança vive dramaticamente a ausência repentina da mãe; “senti-me perdido, abandonado no meu quarto, à espera dela”. Inconscientemente, associa a aflição da separação a uma mancha de humidade que vê no tecto e que fixa atentamente. Vinte anos mais tarde, de cada vez que entra em contacto com a humidade, começa a espirrar e sente falta de ar. A humidade reactiva esta memória desagradável, este sofrimento. A humidade (como o pólen, o pó, o pelo de animais ou a multidão no caso da agorafobia) é apenas um elemento de transposição da angústia ou da separação. No entanto, como medida de protecção, o cérebro desencadeia uma síndroma de alerta para precaver os perigos da mesma situação passada; os espirros constituem uma forma de não entrar em contacto com o cheiro da humidade.

O que podemos constatar é que a reacção patológica de defesa está adaptada a um instante que foi mas que já não é. A patologia é uma reacção a um stress que já passou e que no momento da reactivação não faz sentido porque a situação é outra. Este é o dilema que encontramos na terapia: tratar uma reacção a algo que já não existe; pode parecer absurdo mas o nosso cérebro arcaico funciona desta maneira e seguramente ele tem boas razões para considerar que se a evolução da vida chegou até onde chegou, deve-se, em grande parte, a aplicação sistemática deste princípio básico que associa choque/stress/emoção/memória e reacção de adaptação.

Braga, 19 Abril 2008

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© Alain Jezequel 2009